A vida no Espírito

04/07/2017

Romanos

Por Eduardo Jorge


Viver no Espírito significa assimilar o mistério da salvação que Cristo proporciona em nós. Pela carne, pelo pecado original, pela concupiscência, o homem é inclinado a viver segundo o que lhe é apresentado, de acordo com a visão puramente humana, que indubitavelmente leva ao pecado, e não segundo a ampla visão do Espírito. Ao encontrar esse mistério, o assentimento a esta ação do Espírito Santo não só favorece, mas permite que ocorra a libertação do jugo de escravos, tornando-o livre. A plenitude dessa liberdade encontra-se na graça da santificação e glorificação, onde o homem completo, corpo e alma, assistido pelo Espírito, alcança o tesouro do céu. Nesta perícope, como afirma Barbaglio "o apóstolo (Paulo) personifica a força divina que se manifesta na história humana e é criadora daquela plenitude de vida que é própria do futuro prometido por Deus" (AS CARTAS DE PAULO II, pág. 239, Loyola 1991)

Conforme a Epístola aos Romanos "Jesus Cristo liberta do pecado e da morte. Não há mais condenação aos que vivem em Jesus Cristo. Condenou o pecado na carne para que a justiça fosse feita. " (Rm 8,1-4). Há aqui uma separação clara entre o que é carnal e espiritual, morte e vida (vv. 5). Pois é a presença vivificante de Cristo pelo Espírito que liberta da escravidão do pecado e nos torna, sacramentalmente (Batismo, Eucaristia e Crisma), seus filhos adotivos, a ponto de chamá-lo de "Painho" - Aba Pai (vv 10.15). São João Crisóstomo (347-407†), em seu comentário ao corpus paulino, escreveu "'Todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus' (v14), esclarecendo que ele quer orientar nossa vida, como um comandante governa o navio e um cocheiro a parelha de cavalos" (PATRÍSTICA, pág. 264 Ed. Paulus 2010).

Não há, entretanto, uma correlação com uma status quo de "vida boa"... sem tribulações... Pois não há comparação entre os sofrimentos presentes e a glória futura, afirma o apóstolo (v 18). Há um esperar, um aguardar da criação pela manifestação dos filhos de Deus. Que viria a ser? A aceitação misteriosa da graça no homem e sua ação transformadora no mundo-cosmos, de forma tão ansiosa e sofrida que acontece "gemendo e sofrendo dores de parto até hoje" (v 22). É necessário ter paciência na dor para alcançar, na esperança, a salvação. (vv 24-25)

"Tudo concorre para o bem dos que amam a Deus" (v 28), frase muito usada e muitas vezes descredenciada de seu verdadeiro valor, que é ter paciência na tribulação para alcançar a coroa da glória, para si e para todos os que vivem em comunhão na humanidade. Por isso, o cristão tem que agir de forma especial, diferenciada, não se colocando acima, mas como servo, suportando as cruzes, como "predestinados distintos, conforme Cristo, primogênito de uma multidão de irmãos" (v 29). Ainda assim, recorrendo à outra máxima da escritura, muito usada atualmente com seu significado modificado "se Deus é por nós quem será contra nós?" (v 31)... não significa uma disposição do Onipotente em servir às vontades materiais humanas , mas um deliberado anseio, uma "sede" de que o batizado encontre sua plena vida no Espírito, na liberdade de servir a causa de Cristo e onde quer que esteja, seja "luz do mundo" (Jo 8,12)

Aproveitando mais as palavras de São Paulo "quem nos separará do amor de Cristo? Tribulação? Angústia? Perseguição? Nudez? Fome? Perigo? Espada? (v 35). Quem estará disposto a enfrentar isso? Não é essa "uma palavra muito dura"? (Jo 6,60)... Não. É necessária e vivificante, parafraseando São Pedro "onde iremos, só tu tens palavras de vida" (Jo 6,68). É necessário escutar e abraçar a profecia do Sl 43, 23 "Por amor de ti somos entregues à morte o dia inteiro; somos tratados como gado destinado ao matadouro", sabendo que "em todas as coisas somos mais que vencedores naquele que nos amou" (v 37), que haverá batalha, luta, derramamento de lágrimas, de sangue, angústias e gemidos, mas "nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem o presente, nem o futuro, nem as potestades, nem as alturas, nem os abismos, nem outra criatura nos separará do amor de Deus que nos é testemunhado em Cristo Jesus".

Esta reflexão é bem convidativa e insistente no contraste entre o querer de Deus e o querer do homem. Há inclusive que se realçar que o querer do homem no Espírito tem máxima aproximação com o querer de Deus. Que o querer do homem fora da vida no Espírito tem afinidade com o que o leva a sua condenação: cumprir a vontade humana segundo a carne e segundo o pecado.

Viver segundo o Espírito requer um sim, como Maria na Anunciação deu o seu "fiat voluntas Tua", como o Senhor que nos ensinou a rezar glorificando a Deus e dizendo no ápice do Pater Nostro "fiat voluntas Tua, sicut in cielo et in terra", assim em mim como em ti, na minha fraqueza como em teu pleno triunfo, no meu nada para que eu possa ser em Ti, tudo.

Rezemos como São Nicolau de Flue, padroeiro da Suiça: "Meu Senhor e meu Deus, arranca de mim mesmo tudo que me impede de ir a Vós. Meu Senhor e meu Deus, dai-me tudo aquilo que me conduz a Vós. Meu Senhor e meu Deus, tirai-me de mim mesmo e entregai-me todo a Vós". Dai-nos Senhor teu Santo Espírito e tudo será criado. E renovareis a face da terra.