A doutrina escatológica que Paulo apresenta

04/07/2017

Por Luciano S. Almeida

Há pouco fomos surpreendidos pela pergunta de um estudante do fundamental de uma das escolas em que lecionamos, e o mesmo nos interpelava da seguinte forma: "Professor existe mesmo estas questões relacionadas a fim dos tempos, fim do mundo, Apocalipse, etc... Essas coisas!?" Diante de tal indagação não tivemos como não lembrar de nossas aulas a respeito das cartas paulinas e suas realidades eclesiais e também filosóficas-teológicas. Principalmente as que sinalizavam a preocupação do Apóstolo dos gentios sobre o fim dos tempos, a escatologia, etc.

Pois bem, neste momento, se fizermos algumas leituras específicas perceberemos a riqueza com que Paulo apresenta, para os membros das comunidades a quem ele escrevia, a consistência de sua teologia escatológica. Se é que podemos destacar, mais especificamente, alguns estudiosos sinalizam que esses temas podem ser encontrados com maior facilidade tanto na primeira carta de Paulo à comunidade de Corinto como também em seus escritos destinados à comunidade de Tessalônica.

Neste sentido não podemos deixar de contextualizar "en passant" a comunidade de Corinto lembrando que a mesma havia passado por algumas transformações pós conflitos, ou seja, depois de uma fase de reconstrução por conta de inúmeras guerras com os romanos. E também outras situações sociais ligadas a um contexto multicultural por ser uma localidade com todas as características inerentes a uma região portuária. E também levando em consideração o que Hernandes Dias Lopes sinaliza em um de seus artigos que:

"Corinto era uma cidade altamente intelectual. O principal hobby da cidade era ir para as praças e ouvir os grandes filósofos e pensadores exporem suas ideias. Era uma cidade que transpirava cultura e conhecimento. Paulo entendia que o evangelho poderia chegar ali e mudar a cosmovisão da cidade.." (LOPES, 2010)

Paulo tinha muita clareza de que aquele povo estava sedento para um entendimento que o ajudasse a dar um sentido mais plenificado à sua existência, que apesar de inúmeras sabedorias não tinha encontrado algo que satisfizesse por inteiro seu desejo de infinito. Dentro deste pressuposto Paulo começa a sinalizar para aquele povo intelectualizado e sedento de sentido que existia uma experiência de fé possível de ser vivida pelos homens mesmo depois da morte de seus corpos.

O apóstolo Paulo começa então a sinalizar para o povo de Corinto a ressurreição dos mortos. E ele razia está realidade conferindo a ela em seus discursos e pregações que essa realidade tem um valor fundante, um valor supremo para significação da vida do ser humano que escolhesse, que cressem de todo coração e de forma inequívoca em Jesus Cristo de Nazaré como seu Senhor:

"12 Ora, se se prega que Cristo ressuscitou dos mortos, como dizem alguns dentre vós que não há ressurreição de mortos? 13 E, se não há ressurreição de mortos, também Cristo não ressuscitou. 14 E, se Cristo não ressuscitou, logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé. (cf. 1Cor 15, 12-14)

Paulo de certa forma sinalizava que a fé que busca seguir a Jesus não pode ser uma fé que não tenha a convicção inabalável na ressurreição de Cristo por que seria um esforço vão, seria uma intelectualidade destinada ao vazio e todos os esforços das pregações dos apóstolos e missionários seriam apenas palavras jogadas ao vento, por que não dizer teria sido apenas pura vaidade intelectual, pura vontade humana que não viria de uma experiência, de um encontro com o próprio Jesus Cristo. Isto sinalizaria que todo o esforço do anúncio querigmático realizado por todos eles haveria acontecido em vão, parafraseando o salmista quando diz que em vão trabalharam os trabalhadores da messe, pois não foi uma dádiva, um dom dado por seu senhor. (cf. Sl 27, 1)

Não pode se perder de vista que Paulo de modo contundente sinalizava essas realidades escatológicas e que admoestava constantemente aquela comunidade religiosa que seriam missionários falsos aqueles que optassem em não crer na ressurreição de seu senhor Jesus Cristo o Filho de Deus que habitou entre nos seres humanos. Isto é, os cristãos que adormeceram acreditando em Cristo como seu Senhor e Salvador, ressuscitados dos mortos esses homens e mulheres marcados indelevelmente pela marca do Espírito Santo conferidos através dos seus batismos, eles não estariam perdidos e vacantes em situações de vidas terrestres, muito menos em suas vidas celestes ao retornarem para o Pai.

Paulo continua ensinando que aqueles que não acreditam numa vida celeste, plena e fraterna estes homens e mulheres devem ser dignos de pena, pois os mesmos estariam perdidos e desnorteados em sua existência. (cf. 1Cor. 15, 19). Neste sentido quem assim vivesse segundo a teologia paulina da escatologia permaneceria sem entender que Cristo é primícia dos que já morreram (cf. 1Cor 15, 10b). Pois é por meio de um homem, sinaliza o apóstolo, que de fato haveria de vir a salvação de toda a humanidade e a morte com certeza já fora vencida por esse homem, Deus presente no meio dos vivos e dos mortos (cf. 1Cor. 15, 25). Portanto Paulo não se cansa de afirmar que "se os mortos não ressuscitam? Comamos e bebamos, que amanhã morreremos" (cf. 1Cor. 15,32b).

E na vida celeste anunciada pelo apóstolo dos gentios ele insistentemente confirma que na vida que há de vir os corpos ressuscitarão incorruptíveis e que serão corpos resplandecentes de glória e serão fortes e espirituais. (cf. 1Cor. 15, 42-43). Neste ínterim Paulo confirma a predileção ou precedência do bom cristão nesta realidade celestial da vida que há de vir no escaton. Lembrando que escatologia segundo Abbagnano é:

[...] um termo moderno que indica a parte da teologia que considera as fases 'finais' ou 'extremas' da vida humana ou do mundo: morte, juízo universal, pena ou castigo extraterrenos e fim do mundo. Os filósofos usam às vezes esse termo para indicar a consideração dos estágios finais do mundo ou do gênero humano. (ABBAGNANO, 1999, p. 344)

O apóstolo ainda expressa em sua doutrina que trata do destino final do homem e do mundo, que com uma espécie de predileção estará presente na vida espiritual de todos os cristãos, estes mesmos serão, um dia no fim dos tempos, transformados em corpos celestes, pois Deus mesmo revestirá a cada um, por meio de Seu Filho Jesus Cristo, com uma incorruptibilidade.

Paulo então descreve a imagem de Jesus Cristo quando o mesmo vir em sua glória para resgatar aqueles que como homens de fé tenham crido e esperado Nele e dizendo que:

"De maneira que fostes exemplo para todos os fiéis na macedônia e Acaia.
Porque por vós soou a palavra do Senhor, não somente na macedônia e Acaia, mas também em todos os lugares a vossa fé para com Deus se espalhou, de tal maneira que já dela não temos necessidade de falar coisa alguma; Porque eles mesmos anunciam de nós qual a entrada que tivemos para convosco, e como dos ídolos vos convertestes a Deus, para servir o Deus vivo e verdadeiro, e esperar dos céus o seu Filho, a quem ressuscitou dentre os mortos, a saber, Jesus, que nos livra da ira futura." (cf.1 Tes 1,7-10)

Pois dentro deste contexto Paulo sinaliza que o homem de fé não pode perder de vista o seu equilíbrio no decorrer de sua vida terrena. Esse homem não pode fraquejar em sua fé diante de suas desesperanças e diante do mau testemunho dos bons. Sendo assim o apóstolo afirma que:

1Ora, irmãos, rogamo-vos, pela vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, e pela nossa reunião com ele, 2Que não vos movais facilmente do vosso entendimento, e não vos perturbeis, nem por espírito, nem por palavra, nem por epístola, como escrita por nós, como se o dia de Cristo estivesse já perto. 3Ninguém de maneira alguma vos engane; porque aquele dia não virá sem que antes venha a apostasia, e se manifeste o homem do pecado, o filho da perdição; (cf. 2 Tes 2, 1-3)

Portanto, quando falamos de escatologia não podemos deixar de prestar as devidas reverências aos escritos paulinos sobre os tempos que hão de vir, na vinda do fim dos tempos. Pois o mesmo apóstolo nos trás uma riquíssima colaboração teológica para entendermos melhor os mistérios que envolvem a salvação da humanidade.

REFERÊNCIAS

Texto retirado de: https://www.bibliaonline.com.br/acf/1ts/1, acesso em 12.06.2017.

Texto retirado de: https://www.lds.org/scriptures/nt/2-thes/2.1-3?lang=por, acesso em 12.06.2017.

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. 4º Ed, São Paulo: Martins Fontes, 2000.

BORTOLINI, Arno. Bíblia de Jerusalém, São Paulo: Editora Paulus, 2002.

Texto retirado de:

https://www.mundobiblico.com.br/content/index.php?option=com_content&view=article&id=31:por-que-paulo-resolveu-plantar-uma-igreja-em-corinto-&catid=5:curiosidades&Itemid=24, acesso em 01.06.2017. 

Por Silvio Gomes

Durante um estudo e pesquisa sobre Escatologia Bíblica foi descoberto um vocabulário bíblico expressivo (temas e textos) que começaram a indicar chaves importantes de leitura na descoberta de temas com acentuada indicação escatológica na literatura paulina.

Na abordagem Paulina de sua Teologia aparece a influência da cultura grega, hebraica e ainda romana. Paulo não poderia escrever e possuir um substrato mental diferente de sua época. Os gêneros literários que empregou a forma de escrever, o modo de argumentar (nitidamente do pensamento grego: tese, antítese e síntese), formam a sua maneira de pensar nas cartas e a apresentação da Teologia.

A escatologia de Paulo proporciona a base para muitos outros temas importantes que constituem a essência da teologia paulina: cristologia, pneumatologia (que trata da alma e de Deus), eclesiologia, soteriologia e antropologia. Todas essas se baseiam no fundamento escatológico do pensamento paulino.

Este fundamento se difunde por todos os estudos paulinos, pois é possível ver pressuposições escatológicas em praticamente todas as cartas do "corpus" paulino. Gálatas e Filêmon são sugeridas como possíveis exceções, pois não contêm referências explícitas ao futuro Dia do Senhor.

O material escatológico ocorre em vários contextos nas cartas paulinas: referente a credos, polêmicos, pastorais, éticos, parenéticos (exortação moral) e de perícope pessoal, todos contêm esse ensinamento.

A importância da escatologia paulina é evidente apesar de várias opiniões a respeito da autenticidade de agumas cartas (2 Tessalonicenses, Colossenses e Efésios) ou das Pastorais.

Mesmo se algumas dessas cartas do "corpus" paulino forem consideradas obra dos seguidores de Paulo em uma geração subsequente, fica claro que o ponto de vista escatológico paulino ajuda a condicionar o ensinamento contido nelas:

- o contexto da escatologia paulina literatura apocalítica judaica;

- a contingência das cartas paulinas;

- o conteúdo da escatologia paulina (alguns principíos dominantes);

- a escatologia e a cristologia paulinas;

- a escatologia e a ética paulinas;

- a escatologia paulina e o misticismo judaico;

- a dinâmica social no essinamento escatológico paulino.

O reconhecimento da importância do ambiente escatológico dos materiais neotestamentários é um dos mais importantes resultados das investigações biblistas do século XX.

Uma das contribuições mais importantes nos estudos paulinos recentes é o crescente entendimento da natureza contingente das cartas que formam o "corpus" paulino.

Na primeira carta aos Coríntios encontramos um texto sobre a Ressurreição de Jesus (1Cor 15,1-10). Este texto tem um caráter excepcional não só porque é um resumo da Teologia de Paulo, mas também porque é um texto escatológico, dando uma resposta aos cristãos de Corinto que embora acreditassem na Ressurreição de Jesus não acreditavam na Ressurreição dos mortos.

O núcleo central da perícope se encontra nos versículos 3-8, que narram o fato, que na Igreja de Corínto, começou a perceber inquietudes acerca da ressurreição dos mortos. São Paulo mesmo diz: "como podem alguns dentre vós dizer que não há ressurreição dos mortos? (1Cor 15,12) e ainda "Mas dirá alguém, como ressuscitam os mortos? Com que corpo voltam?"(1Cor 15,35).

A resposta de Paulo é dura e enfática: "Insensatos"!. E parte da argumentação de que os próprios fiéis já têm aceito a Ressurreição de Cristo. Este pressuposto da Ressurreição é princípio básico e constitui o "Credo" da fé das Comunidades Primitivas.

Toda a pregação apostólica missionária, como já foi exposta se baseia no mistério Pascal de Cristo Morto e Ressuscitado. Paulo assim se expressa: "Transmiti-vos, em primeiro lugar, aquilo que eu mesmo recebi: Cristo morreu por nossos pecados, segundo as escrituras. Foi sepultado, ressuscitou ao terceiro dia segundo as escrituras. Apareceu a Cefas, e depois aos doze"

(1Cor 15,3-4 = Rm 1,4; G1 1,2-4; 1Ts 1,10 etc).

Outros textos das Cartas Paulinas podem ajudar a entender a característica básica das primeiras Comunidades, a fé no Cristo Morto e Ressuscitado: 1Ts 1,9-10; 5,2; 1Cor 11,23-25; 16,22;

Rm 10,9; F1 2,6-11; Ef 5,14; 1Tm 3,16.

Uma das primeiras chaves de leitura para entendermos a Escatologia Paulina está na profissão de fé da Comunidade Primitiva: Morte e Ressurreição de Jesus. Num primeiro momento encontramos a Comunidade que se fixa em Jerusalém, se considera o Israel Escatológico do final dos tempos. Num segundo momento surge na vida da Comunidade que acredita nos acontecimentos Pascais, em Jesus como Messias e que a era escatológica iniciou em Jesus. A Comunidade se abre para o mundo tornando-se missionária e anunciadora do Cristo Morto e Ressuscitado.

Este elemento fundamental da escatologia da Comunidade Primitiva é assumido por Paulo em especial na sua pregação e anúncio. O epistolário paulino muito bem atesta.

A análise de 1Cor 15,3-8, mostra como Paulo se utiliza dos elementos de fé da primeira Comunidade.para responder as dúvidas dos Coríntios acerca da Ressurreição.


Outros textos das Cartas Paulinas mostram que a base da pregação de Paulo é o anúncio da Morte e Ressurreição de Jesus e que foi vivido e anunciado pela comunidade dos apóstolos e discípulos de Jerusalém num ambiente escatológico Judaico.

BIBLIOGRAFIA:

www.abiblia.org - textos retirados

Escatologia de Paulo - Publicação do Prof. Dr. Odalberto Domingos Casonatto

Bíblia Sagrada - CNBB

Dicionário de Paulo e suas cartas - Editoras Vida Nova, Paulus e Loyola.